Book 1: Memories

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Book 1: Memories

Mensagem por Hummingbird em Qua Maio 04, 2016 7:30 pm



#01



Busco em minhas memórias palavras que eu possa usar para descrever aquilo que quero descrever. Houve um tempo em que isso não me era problema. Um tempo em que colocar as mãos num lápis ou caneta sobre uma folha de papel em branco já me trazia uma infinidade de palavras as quais gritavam, insistiam, suplicavam para ganharem vida em minhas mãos. O mesmo para aparelhos digitais. Oh! Não, não sou um conservador exagerado muito menos antiquado. Admito que tenho até uma certa preferência por escrever meus textos em meu amado Notebook. Acontece que não devemos negar as nossas raízes, certo? Tudo começa de alguma maneira e comigo começou assim, no papel.

Quando mais novo, tudo é aventura. Tudo pode ser considerado uma nova descoberta, a euforia de conquistar novos horizontes, eureka, somos quase cientistas mirins, promissores, o futuro da nação! — só que não.

A inocência é a primeira parte mais preciosa de nós mesmos que acabamos perdendo ao longo da vida. Digamos que é o primeiro tesouro roubado. E não é nenhuma questão de falta de cuidados, precaução ou coisa do tipo. Simplesmente é como as coisas funcionam; você cresce e para que se adquira experiência, você primeiro precisa deixar a inocência. Você erra. Você erra de novo. Erra várias vezes, em alguns casos, mas isso condiciona o seu comportamento para que não cometa novamente os mesmos erros. No meu caso, foi difícil entender o que fazemos com esses erros? Eu acreditava que precisava fazer alguma coisa com eles, compartilhar, tentar entendê-los. Minha família sempre esteve presente, um porto seguro para que eu pudesse compartilhar praticamente tudo. Mas então, aos poucos, a inocência vai se despedaçando. Como uma árvore perdendo suas folhas, mas sem esperanças de tê-la novamente depois do inverno. Um outono quase interminável de experiências terríveis que marcam a sua juventude para quase todo o sempre. E independente da proteção de pais ou familiares, você acaba passando por isso de um jeito ou de outro. Percebo agora que, mesmo para as famílias mais cuidadosas, o eterno outono ainda chega para depenar qualquer vestígio de inocência.

Para cada pequeno erro, eu gostaria de entender, o que devemos fazer com eles? Eu realmente me esforçava pra isso, pois de alguma maneira, mesmo inconsciente - acredito eu - , eu queria saber, queria entender. Mas eu fui condicionado a acreditar que eram apenas erros. Que eles deveriam ficar para traz e não se repetir. Sem mais. Sem grandes detalhes. Quase um banquete para uma curiosidade aguçada. Então, em determinado ponto você começa a sentir necessidade de fazer alguma coisa com essa curiosidade. Você não consegue guardar para si. Tem medo de expor aos familiares pois sabe que para eles não passa de um erro que deve ficar para traz e não se repetir. Mas você deseja repetir. Somente repetindo você vai ter consciência do porquê é tão errado, isso é mesmo um erro?

Acredite, um dos piores. Eu posso quase afirmar com total certeza que foi a partir daí que desenvolvi o péssimo hábito de querer julgar as coisas apenas depois de senti-las por mim mesmo. Um hábito egoísta eu creio. Opiniões e conselhos, avisos, nada disso serve para satisfazer o desejo interminável - tão quase interminável quanto o próprio outono da inocência - até que você suba no mais alto dos galhos, arranque a última das folhas, respire o último suspiro e então tire suas próprias conclusões. Um erro. Talvez o maior de todos, pra começo de conversa. Pelo menos de que tenho memória.

Desde então minha juventude passou a ser recheada de mentiras. Eu gostava de pensar; "não são mentiras danosas"; "ninguém precisa ficar sabendo, pelo menos até que eu consiga o que quero". E existe mesmo algum conforto em classificar mentiras? De uma maneira ou de outra, elas nunca vão deixar de ser um homicídio da verdade, por menor que seja. E quanto mais mentiras você cria, menos verdades você deseja. Inverter os papéis não é algo saudável, entende? Então eu comecei a aprender. Folha por folha derrubada da jovem árvore, cicatriz por cicatriz ganha por cada aprendizado. Quase uma troca equivalente. Mas nós somos jovens, a euforia da descoberta, da satisfação, faz tudo parecer flores. Não digo que foram tempos de mentira a torto e a direita, porque em algumas eu até fui descoberto. Mas o real problema era justamente esse. Ser pego numa mentira é quase como ser provocado a contar outra. Mentiras demais substituem a verdade que, por sua vez, parece clara demais, objetiva demais... simples demais. Não é o que eu desejava, pelo menos não enquanto a inocência estiver lá. Parece que de alguma maneira eu já sabia que em determinado momento, quando eu estivesse por minha conta, as responsabilidades sob minhas costas se tornariam mais pesadas e talvez portanto que todos ficam acorrentados na verdade. Sempre a verdade. Apenas a verdade. Mas eu queria mais.

Então você aprende interpretação de texto. Você aprende de linguagem, você aprende a lidar com situações das mais diversas. Folha por folha, dia após dia. Erro, após erro.

Um dia você acorda e a mentira tornou-se sua verdade. As circunstâncias levam você a acreditar que não havia nada de muito importante por traz disso. Era só uma verdade, o que havia demais nela? Agora você pode ser o que você quiser. Inclusive, modéstia parte, toda a sociedade insiste em criar esse maldito sonho americano na cabeça das pessoas. "Você pode ser o que você quiser". Por muitas vezes me peguei pensando se esse não era o real esmagamento da inocência. Pois as crianças regam suas árvores uma vida toda com tais palavras e sonhos para que num dia como qualquer outro, a realidade, a tão amada verdade, afiada como um machado de lenhador consiga derrubar sua pequena arvorezinha com um único corte horizontal. Direto. Objetivo. Simples como uma verdade. E sua árvore cai, o outono termina e apesar da ideia de que finalmente teria um alívio, não, não, ainda é muito cedo. Ainda tens de enfrentar o inverno. Para muitos demora um pouco, sabe? Cair na realidade e ver a vida como ela é, literalmente levar um banho de água fria, alguns experimentam seus primeiros momentos de depressão, procuram abrigo nas mais diversas coisas. Acreditem ou não, o meu abrigo foi o próprio inverno. Oh! Não, longe de mim querer sentir-me especial. Eu sou só mais um, dentre muitos outros, que experimentaram o gostinho do inverno muito antes, quando tiveram vontade de fazê-lo. Minhas mentiras poderiam sim ser qualquer coisa, até mesmo um inverno de realidade como esse. E eu poderia experimentar o melhor dele até estar cansado disso e criar outro. Eis o real perigo de querer experimentar tudo por si só. De querer julgar pela sua própria experiência. Sentir-se o todo poderoso baseado nas sua vivência, preso em sua própria criação.

Você cresce. A árvore da inocência já não floresce mais há anos. As estações variam de acordo com sua instabilidade emocional, bom pelo menos comigo foi assim. As mentiras ganham tamanha proporção que nem mesmo você consegue distinguir todas elas. Algumas tornam-se parte de você. Pedaço por pedaço da sua verdadeira persona começam a ser devorados e substituídos por outros e você nem sequer nota a diferença. Mas ainda assim sente falta de algo. O vazio não pode ser preenchido por mentiras, apesar de tudo, pois na instabilidade que ele provoca, seria necessário criar mentiras para cada momento de emoção diferente. Você não pode exagerar, não quer deixar os padrões que vem seguindo desde a infância pois já os experimentou o suficiente para saber seus limites, saber até onde você pode e até onde não pode ir. Deixa-los agora seria abandonar a única corda que pode trazê-lo de volta desse abismo. Abismo esse o qual você passou anos observando, cada dia mais perto, cada dia mais íntimo da sua própria escuridão. Você fica frente a frente com todas as coisas que criou, e no auge da realidade, descobre uma verdade que talvez nunca gostaria de ter descoberto.

Monstros, demônios, inferno... tudo isso, está bem ali, na sua própria mente. Em cada pedacinho, cada cantinho mais escuro, eles vão se alimentando das suas inseguranças, das suas falhas, dos seus pecados. Eles tomam conta de quem você acha que era todo esse tempo. São seus próprios demônios e você não consegue se libertar deles pois eles são a verdade agora.

— Nem mesmo mentiras podem me proteger agora.

Eu costumava sentir uma certa atração por uma frase que ecoa em minha mente até os dias atuais. "Quando você passa tempo demais olhando pro abismo, corre o risco dele olhar de volta pra você". Um significado profundo pra mim, algo que me deixa reflexivo no meu mais íntimo.

Então eu decidi lutar. Como se luta contra uma verdade tão dura? Tem sido uma batalha terrível. Dias em que eu acordo no abismo entre a sanidade e a loucura. Dias em que simplesmente não quero acordar. Dias em que por mais que eu me esforce, não consigo sentir arrependimento de nada do que fiz, e que preciso aceitar e conviver com esses demônios. Eu perdi a minha inocência. Eu perdi a minha verdade, eu perdi muitas coisas e nem estou perto da idade que muitos consideram como um homem experiente. Pela primeira vez eu senti um medo terrível do esquecimento, eu senti os tremores na minha alma durante uma tarde comum como qualquer outra quando de repente eu não me senti eu mesmo. Quando de repente eu percebi que poderia ser qualquer outro, que poderia nem sequer existir, que o esquecimento estaria me abraçando e me levando para algum lugar sem volta. Nessas horas em que sua vontade é submetida de joelhos, sua determinação é levada pelo vento na beira do abismo, nessa hora em que você sente que nada mais pode segurar sua mão e sussurrar um único motivo pra que você resista, pra que você lute? É quando você da o primeiro passo no que chamam de Fé.

Acreditar em algo.

Seja na sua religião, seja em outras religiões, santidades, espíritos, forças do universo, na natureza, no própria planeta, ou em si mesmo. É preciso existir algo que você acredita com todo o seu ser, pois é algo que nem mesmo uma mentira ou uma verdade podem mudar. Pois é isso que vai despertar em você o que você mais precisa pra sobrepor as dificuldades, mesmo quando o inimigo é você mesmo. Lembrar daquilo que eu acredito, lembrar das coisas que me fazem ver esperança mesmo depois de tanta escuridão e de tamanha profundidade no abismo, é o que me faz acreditar que ainda posso lutar.




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